Pubblicazione dell’Associazione per l’Interscambio Culturale Italia Brasile Anita e Giuseppe Garibaldi

Publicação bimestral . Nº 125 - 126 - Ano XIV - Março / Abril 13 - R$ 10,00

Livros que eu li

por andrea em domingo, 29 de maio de 2011 às 13:11

 

 

“A palavra foi feita para dizer.  Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.              (Graciliano Ramos)

              Há um exercício extremamente salutar e que gosto de praticar de vez em quando. Trata-se de estabelecer, mentalmente, uma lista dos livros que mais me impressionaram na vida. Uma lista que sempre fica alojada na minha memória e que hoje, pela primeira vez, tento colocar no papel de forma organizada. 
    Certamente, haverá graves omissões, por conta de nossas próprias insuficiências. Há obras para lá de clássicas que ainda não li e, outras, que talvez não tenham tanta importância assim aos olhos de alguns. Paciência: toda escolha é, forçosamente, arbitrária. A rigor, se alguém se sentir estimulado a ler um livro que seja dos que serão arrolados abaixo, já daremos por cumprida nossa modesta missão.
    Inicialmente, é preciso saber por que alguns livros me impressionaram. Talvez isso tenha ocorrido pelo prazer estético. Ou talvez por esses livros apontarem novos caminhos. Provavelmente ainda por corresponderem a um momento bem determinado de minha vida. Certamente por esses motivos todos. Ademais, a leitura é feita para quem ama o silêncio e os momentos de solidão – algo raro no mundo contemporâneo e que gosto de valorizar. Como disse a  escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, “a solidão é necessária ao convívio”. E quero fazer logo uma observação: os livros que aponto abaixo não são os melhores livros do mundo, obviamente. São tão somente os livros que mais gostei de ler e manusear na vida. São os livros que trago no coração.
    Aprendi a ler em casa. Meu pai gostava muito de ler e possuía uma biblioteca de qualidade, que só melhorava com o tempo. Quando criança, eu lia gibis, naturalmente, e suplementos infantis dos jornais. E coleções, como O tesouro da juventude e Conhecer, esta última vendida em bancas de jornais. Fui adquirindo assim o hábito da leitura. Hoje, confesso que releio mais do que leio. Condições para uma boa leitura? Iluminação adequada, silêncio, uma poltrona confortável ou então uma rede e, naturalmente, um ótimo livro nas mãos. 
   Vou lembrando dos livros que li um pouco ao acaso, mas sinto necessidade ao mesmo tempo de colocar uma certa ordem nas minhas reminiscências. Assim, posso caminhar de forma um pouco mais segura, talvez, classificando as leituras por temas, digamos. E aproximando os temas (ou áreas) uns dos outros, sempre que possível.  
   Começando pelas minhas primeiras leituras. Assim, o primeiro livro que gostaria de lembrar é Caçadas de Pedrinho. Uma delícia esse livro. Para o menino da cidade grande que eu era, ele abria as portas – ou as porteiras… – do mundo. Quando eu partia de férias para a casa dos meus avós em Minas, eu me sentia o próprio herói-mirim de Monteiro Lobato: minha vida por um quintal! Eu era o dono daquela porçãozinha de terra com árvores frutíferas por todos os lados, um riozinho ao fundo e a Maria Fumaça sacolejando e apitando pelos trilhos da estradinha de ferro que passava atrás da casa. Além de avistar o trenzinho caipira, eu ainda percebia, da janela do quarto do meu avô, as palmeiras imperiais que enquadravam o quintal. Infelizmente eu não me chamava Pedro – mas o meu filho não escapou de ter este nome…
  Outro clássico da literatura infanto-juvenil que me fascinou foi Robinson Crusoé, do inglês Daniel Defoe. Trata-se de uma história verídica, na origem. O naufrágio do marinheiro que passou anos isolado em uma ilha no Pacífico serviu de pretexto para o Autor – um antigo membro do serviço de espionagem de Sua Majestade  – trabalhar magistralmente a oposição civilização versus natureza. Com uma narrativa deliciosa, o livro foi, muitas vezes, mutilado, em suas inúmeras versões. Talvez poucos saibam hoje, por exemplo, que há todo um trecho passado na Bahia, onde o nosso Robinson torna-se proprietário de engenho e de escravos. Realmente, nem só de ilhas paradisíacas vive a Humanidade. Outro fascínio foi Tarzan, o filho das selvas, de Edgar Burroughs, de leitura obrigatória sempre. Aliás, guardo o livro até hoje, tendo relido ainda recentemente dois iu três volumes da série criada pelo escritor inglês que nunca pusera os pés na África, mas que fizera viajar sua imaginação.  Moby Dick, do norte-americano Herman Melville, é mais um desses livros que povoaram a minha infância. As referências às minhas leituras de guri ou pré-adolescente no Rio de Janeiro do começo dos anos 60 ficariam incompletas se eu não citasse Os meninos da Rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár, em tradução de Paulo Rónai. Um livro triste – mas de beleza ímpar. Dou a palavra ao próprio Rónai: “Os meninos da Rua Paulo é uma dessas leituras que nos acompanham pela vida afora, livro de aventuras que vale por um estudo de psicologia, livro de memórias em que não se percebe a presença do autor, livro de guerra que nos reconcilia com a humanidade”. E não só: Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, é um livro que me comove ainda hoje. Digo o mesmo de Rosinha, minha canoa, também dele. José Mauro e papai eram amigos e isso facilitava as coisas. Apesar de ter lido em fase adulta, jamais poderia esquecer o conto A pequena vendedora de fósforos, de Hans Cristian Andersen, uma das histórias que mais me tocaram na vida.

   Outro livro delicioso, já por conta das minhas leituras de adolescência, foi  A Moreninha. Eu o reli há alguns anos, por influência do saudoso Nelson Werneck Sodré, admirador da obra. Reli e continuei gostando, o que nem sempre é muito comum. De um romantismo arrebatador, escrito como um folhetim, era uma história com começo, meio e fim – e eu aprecio histórias assim, mesmo que não sejam forçosamente lineares. Mas histórias têm que fazer sentido. E fazer sentir também. Somente quando não há o que dizer ou narrar é que os livros ficam desprazerosos. Mas esse não é o caso de A Moreninha, obra que nos transporta para aqueles saraus do velho Rio de Janeiro – e eu penso, sinceramente, que gostaria de ter vivido no tempo das modinhas. Outro livro arrebatador do romantismo brasileiro? Inocência, de Alfredo Taunay. Para ficarmos ainda no século XIX brasileiro, indicaria o sempre atual Memórias de um sargento de milícias, de Manoel Antônio de Almeida, que incorpora com maestria a fala das ruas.

    Essas notas ficariam incompletas se deixasse de citar outros romances, de uma fase mais madura minha. Vamos àqueles de Machado de Assis. Curiosamente, não tenho preferência por nenhum romance seu. Li-os todos, acredito, e gosto de todos, sem exceção. Mas… – vá entender porque motivo! – devo confessar que sou particularmente atraído pela atmosfera de Helena. E acho imbatível o início de Memórias póstumas de Brás Cubas: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.” Não tenho como decidir…Mas lá no fundo, Brás Cubas… 
    Vidas secas é outro livro marcante. Pela economia de diálogos – pois o sertanejo é acima de tudo um taciturno, antes mesmo de ser um forte. E Graciliano Ramos conhecia o homem do sertão melhor do que ninguém. Afinal, era um deles. Mas a grande cena do livro envolve um cão. Eu me pergunto quem mais, além de Graciliano, conseguiria ver o mundo sob a ótica de um animal – o Baleia, no caso, cuja morte é descrita de forma pungente. “Madame Bovary, c´est moi!”, exclamou Flaubert. E Baleia é o velho Graça, digo eu.
    Jorge Amado merece um capítulo à parte. Talvez ninguém saiba contar uma história melhor do que ele. Balzac, talvez. Jubiabá é meu livro preferido de Jorge Amado. Mas tem ainda o ótimo Tereza Batista Cansada da Guerra, o livro de memórias Navegação de cabotagem e a formidável trilogia Os subterrâneos da liberdade, que narra a luta dos comunistas contra a ditadura Vargas. Lá estão Armênio Guedes, Giocondo Dias, Apolônio de Carvalho, Carlos Marighella em comoventes retratos humanos. Aluísio Azevedo é outro autor que muito admiro. O romance O Cortiço prende qualquer um, do começo ao fim. Outro que possui o dom da narrativa: o paraense Dalcídio Jurandir. Dele li a bela obra Chove nos Campos de Cachoeira e deveria ter lido muito mais coisas.  Eu apreciei Chove nos Campos de Cachoeira ao mesmo tempo em que me debrucei sobre Incidente em Antares, no começo dos anos 70 – sem dúvida uma das obras mais impressionantes de Érico Veríssimo, de quem já admirava não só a trilogia O tempo e o vento como As aventuras de Tibicuera, uma narrativa infanto-juvenil. De final surpreendente é O nó cego, de Geraldo França de Lima, um livro fortíssimo. O amanuense Belmiro, escrito como se fora uma memória e publicado nos anos 30, guarda ainda todo seu frescor: virou clássico. O coronel e o lobisomem, de José Cândido Carvalho, é outro livro que muito aprecio. José Cândido foi um extraordinário criador de tipos e trabalhava o humor como poucos na literatura brasileira. 

    Dos romances estrangeiros – se é que algum romance é de fato estrangeiro a alguém – eu destacaria, lá atrás, Razão e sensibilidade, de Jane Austen. Livro saboroso, retratando a Inglaterra pastoril, de mocinhas suspirando por seu amor, em cenas de doce romantismo que se desenrolam na quietude do ambiente rural. O livro de Jane Austen representa um mergulho quase sem igual na alma humana (como mais tarde somente Dostoiévski saberia fazer). Jane Eyre, de Charlotte Brontë, é mais um belo livro sobre a Inglaterra romântica e um libelo pela emancipação da mulher. Outro retratista extraordinário de seu tempo foi Honoré de Balzac, o autor preferido de ninguém menos do que Karl Marx. Dotado de incrível capacidade de trabalho – dizem que labutava em média 15 horas por dia -, Balzac estabeleceu um painel fundamental da classe dominante francesa de seu tempo, tanto mais impressionante quanto ele não poupava críticas ao comportamento de uma classe que apoiava resolutamente. Mas a honestidade do artista, a sua genialidade mesmo, estava acima de suas preferências políticas. O homem era um; o artista, outro. Do que li dele, o que mais gostei foi Lírio no vale, um caso de amor trágico. O que Karl Marx percebeu em Honoré de Balzac, o nosso Astrojildo Pereira notou em Machado de Assis. 
    Há pelo menos nove ou dez outras obras, da mesma época ou então um pouco mais recentes do que Lírio no vale, que também me fascinaram. A primeira delas é Os irmãos karamazov, do mestre F. Dostoiévski, cuja densidade aumenta à medida que relemos a obra. Outro livro que emociona -  e muito -  é A dama das camélias, o romance-verdade de Alexandre Dumas filho. Outro ainda é A cidade e as serras, hino ecológico de Eça de Queirós, sobre as agruras da civilização industrial. Toda a vida pela frente, de Emile Ajar, pseudônimo de Roman Gary, obra editada na década de 70 do século passado, creio, faz prova de um humor refinadíssimo, além de uma ternura sem limites pelas personagens, sendo uma das leituras mais agradáveis que fiz na vida. O país das neves, de Yasunari Kawabata, toca pela fragilidade do ser humano diante da vida, tema recorrente da obra desse magnífico autor japonês. Drácula, do irlandês Bram Stocker, não poderia, até por um certo pioneirismo, deixar de figurar em qualquer lista.  Os ratos, de Dyonélio Machado, realiza a proeza de ser ao mesmo tempo obra penetrante do ponto de vista sociológico e psicológico. Guimarães Rosa o considerava Dyonélio Machado um dos maiores escritores de seu tempo, senão o maior.  Do colombiano Gabriel Garcia Márquez, li Cem anos de solidão, uma leitura envolvente. Pedro Páramo, de Juan Rulfo é uma pequena obra-prima. Pena que o Autor não tenha escrito mais (publicou apenas dois livros, ao que eu saiba) . E o último que gostaria de citar é o épico Dr. Jivago, de Boris Pasternak, uma das obras-primas do século XX e que versa sobre as vicissitudes da Revolução Russa. Aqui, o romance como que se  encontra com suas origens, resvalando para a epopéia. 
    Eu havia me referido acima às omissões. Confesso que entre as obras de ficção, sobretudo, elas são muitas e variadas. Da Divina Comédia, por exemplo, de Dante Alighieri, só conheço algumas partes. E a obra-prima de Cervantes, Don Quixote de la Mancha, só li em versão reduzida, há muitos anos. Comprei a edição completa e pretendo lê-la em breve. Outra lacuna? O vermelho e o negro, de Sthendal. Mais uma? A origem das espécies, de Charles Darwin – dessa importante obra conheço apenas alguns trechos. Porém um dia eu ainda pago essas dívidas.  No tocante às ideias filosóficas, conheço muito menos do que deveria a obra de G. W. Hegel, sobretudo seus escritos sobre estética, os que mais me atraem nesse autor. Assim como li pouco E. Kant e, mesmo, Martin Heidegger, de quem aprecio muito os textos sobre o modo de vida camponês. Um livro que recomendaria ainda hoje, nessa área da reflexão, é Introdução ao filosofar, de Gerd Bornheim, profundo conhecedor da obra de Jean-Paul Sartre e do próprio Heidegger.
    Bem, as novelas. As russas me encantam. Acho a Rússia o país mais fascinante do mundo e isso talvez se deva ao fato de a terra de F. Dostoiévski  se encontrar na fronteira do Ocidente com o Oriente. De todos aqueles gênios da literatura russa – Gogol, o próprio Dostoiévski, Tchécov, Turgueniev -  o que mais me impressionou foi Alexander Pushkin e sua formidável descrição do modo de vida dos camponeses de seu país. A rudeza dos seus escritos guarda um amor quase inigualável pelo povo – mesmo se comparado a Máximo Górki e outros autores engajados. Era o Autor preferido de Vladimir Lênin e isso talvez tenha influenciado meu juízo, confesso. De toda forma, para mim, seu mais belo livro é A dama de espadas.   
    “Ao despertar após uma noite de sonhos agitados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama transformado num inseto gigantesco”. Esse o começo de Metamorfose, de Franz Kafka. Não existe metáfora maior do homem moderno do que essa, provavelmente. E início mais impactante de novela do que esse, que causasse tanta estranheza ao leitor. Franz Kafka não era russo -  era checo. Isto é, gravitava de qualquer forma em torno da cultura eslava. Percebia a gestação da alienação do homem moderno como ninguém. As instituições burocráticas substituindo as relações sociais. Não saberia dizer se Kafka era pessimista, pois um Autor não tem que apontar diretrizes, penso eu. 
    Outra novela que leio com satisfação sempre é O velho e o mar, de Hemingway. Trata-se de um hino de louvor à tenacidade humana. O final do livro é apoteótico. É o chamado pequeno grande livro. Sempre volto a ele. Do norueguês Tajei Versaas eu li, com prazer e alguma inquietação, é verdade, as novelas Os pássaros O palácio de  gelo (acredito que não tenham sido traduzidas ainda para o português). Outra novela que reputo formidável? O chamado selvagem, de Jack London – quase uma apologia do triunfo das leis da natureza. E de início fascinante também. Mais uma novela? O hussardo no telhado, de Jean Giono, uma das obras mais belas desse autor do sul da França. E ainda: O estrangeiro, do franco-argelino Albert Camus. Outra mais? A pérola, do fabuloso John Steinbeck. A derradeira? Uma vida em segredo, de Autran Dourado, obra-prima em matéria de sensibilidade, levada às telas do cinema com extraordinária maestria por Suzana Amaral.
   Ainda no âmbito da literatura de ficção, eu não poderia deixar de lado os contos. Eles possuem, a rigor, as mesmas características do romance e da novela, mas são bem mais concisos, senão precisos e surpreendentes. Os contos mais extraordinários que li são aqueles de Giovanni Boccaccio, reunidos no belíssimo Decamerão. Depois, os que mais gosto são aqueles escritos por Guy de Maupassant, o mestre incontestável do gênero na modernidade. Alia crítica de corte social e profundidade psicológica na análise das personagens. O seu Bola de  sebo é um dos maiores livros que conheço. Maupassant fez escola e Somerset Maugham pode ser considerado um filho literário seu. Quem duvidar que abra Histórias dos mares do Sul ou 29 Histórias. Maugham tinha um humor irresistível. É atribuída a ele a seguinte frase: “É possível, sim, fazer três ótimas refeições por dia na Inglaterra. Basta pedir o breakfast três vezes por dia” Alphonse Daudet é outro contista fenomenal: Cartas do meu moinho é livro para se ler confortavelmente instalado em uma poltrona de couro, em um canto silencioso, com os pés enfiados em grossas meias de lã e em um par de chinelos velhos. Outro contista francês formidável é Alfred de Musset, criador de Mimi Pinson. De autoria do norte-americano Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias é outro livro quase que de cabeceira meu. Digo o mesmo de Contos da montanha, do português Miguel Torga, obra cativante. Guimarães Rosa, com Sagarana, realiza a proeza de unir o universal e o regional. Seu magistral A hora e vez de Augusto Matraga é uma aula de conto. Dele também li com prazer Famigerado e A terceira margem do rio. Entre os contistas nacionais, destacaria ainda quatro grandes, pelo menos: Lima Barreto (O homem que falava javanês é simplesmente maravilhoso), Hugo de Carvalho Ramos (este um Autor goiano prematuramente desaparecido), Samuel Rawet e Breno Accioly. Magníficos todos.

   Os poetas não ficam atrás dos grandes pensadores, demonstrando, muitas vezes, que a sensibilidade rivaliza com o conhecimento e pode até se antecipar a ele. Nomes? Anacreonte, Horácio, Virgílio. As Bucólicas (e também as Geórgicas) cantam a vida campestre como nenhum outro poeta cantou depois de Virgílio, esse filho de lavradores. São os poemas que mais me agradam, até hoje. Sem prejuízo do prazer que provocam em mim a leitura dos sonetos de Petraca e Camões ou, ainda, Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. Isso, para não mencionar Castro Alves, Cruz e Souza e Álvares de Azevedo e os poetas mais modernos, de versos livres, como Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Bertolt Brecht, Nazim Hikmet, Oswald de Andrade, Garcia Lorca, Maiacóvski, Carlos Drummond de Andrade, Florbela Espanca, João Cabral de Melo Neto, Tiago de Mello, Ferreira Gullar ou Louis Aragon. Poema sujo, do Gullar, é fora de série: “O homem está na cidade / como uma coisa está em outra /  e a cidade está no homem / que está em outra cidade…” Entre os antigos, além dos já citados, Li T´ai Po, Ovídio e Omar Kahyyam são os que mais me dão prazer. E não posso esquecer a produção de prosadores poéticos de primeiríssima linha, e que tanto marcaram o século XX, como Rabindranth Tagore e Khalil Gibran. E seria impossível fechar esse parágrafo sobre os livros de poesia sem mencionar Manoel Bandeira e Manoel de Barros, os dois fantásticos manoéis da nossa literatura. Gosto especialmente de Ritmo dissoluto, de Bandeira, pois foi nesse livro que ele publicou Vou embora para Pasárgada. Do segundo Manoel, aprecio particularmente O livros das ignorãças. Imensos, os dois.
     Não leio teatro. Penso que o texto teatral é para ser encenado e não lido. Provavelmente me  equivoco. Mas…William Shakespeare acaba com as nossas eventuais resistências. Seus livros são portadores dos diálogos mais bonitos que alguém jamais escreveu! Quem duvidar que leia Hamlet, por exemplo, esta bela defesa da necessidade de se colocar ordem em nossas vidas. 

   Seja sob a forma de romance, conto ou novela, o importante é que a literatura transborde de humanismo e seja de fato prazerosa.  
   Encanta-me também um gênero brasileiríssimo (se fosse fruta seria, logicamente, jabuticaba…): estou me referindo à crônica. Ai de ti, Copacabana, do carioca honorário Rubem Braga é a bíblia do gênero. O próprio Braga é um ícone do gênero. O charme da crônica, a meu julgamento, é que cabe tudo nela – da reflexão de caráter filosófico aos pequenos fatos do cotidiano das gentes -, sempre sob uma ótica intimista. Outros mestres da crônica? Raquel de Queirós, Paulo Mendes Campos, Vinícius de Moraes, Stanislaw Ponte Preta, João Saldanha, Elsie Lessa, José Carlos de Oliveira, Lygia Fagundes Telles, Cecília Meireles, Antônio Maria, Artur da Távola, Affonso Romano de Sant´Anna, Marina Colassanti, Nelson Rodrigues, José Lins do Rego, Mário Prata, Graciliano Ramos, Caio Fernando de Abreu, Teixeira Heizer, Ferreira Gullar e Domingos Pellegrini . E peço perdão antecipado por alguma omissão…

   Aprecio a leitura de livros sobre gêneros literários. Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke, descortinou para mim o horizonte da poesia, quando tinha 16 anos. Devo essa a meu querido amigo Roberto Felski de Mattos. Demonstrou Rilke que poeta é aquele que retira inspiração do cotidiano e, acima de tudo, alguém que morreria se não escrevesse poesia. A cidade e o campo, do inglês Raymond Williams, é outro estudo primoroso, centrado sobre o impacto da transição da vida rural para a urbana na literatura moderna. Aprecio ainda os ensaios sobre poesia e literatura em geral de Italo Calvino, Mario Vargas Llosa, Jorge Luis Borges, Otto Maria Carpeaux, Alain e Octavio Paz. Puro deleite são as Pages Littéraires (não sei dizer se foram traduzidas), uma antologia de Jules Michelet, que li há tempos. Da mesma forma que a antologia Les plus belles pages des Mémoires d´Outre-tombe, de Chateaubriand. Eu não saberia classificar o Mitológicas, de Roland Barthes. Livro de crítica? Só posso dizer que raramente um livro me deu tanto prazer ao lê-lo. Mitológicas, na verdade, põem em discussão todos os ícones culturais da modernidade. Tampouco saberia ordenar Voz de Minas, de Alceu Amoroso Lima. Narrativa de viagem? Ensaio literário? Relato histórico? O que talvez importe mais é que o livro é de fato incontornável, já que revela o quanto Minas Gerais representa para o equilíbrio do país ao longo da sua História. Trata-se de um livro escrito de forma agradável, extremamente prazerosa de se ler.

   Instrumentos dos mais eficientes de iniciação à leitura são aqueles livros sobre o prazer da leitura, justamente. São obras estimulantes. Indicaria algumas delas. Noções de história da literatura, de Manuel Bandeira; Por que ler os clássicos, de Italo Calvino; Os livros nossos amigos, de Eduardo Frieiro; O que se deve ler para conhecer o Brasil? O ofício de escritor, ambas de Nelson Werneck Sodré; A vida literária no Brasil – 1900, de Brito Broca; Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira Livros na mesa, de Otto Maria Carpeaux; os dois saborosos volumes de Disparates de todos nós, de Agrippino Grieco; Os livros e os dias, de Alberto Manguel, Literatura e revolução, de Leon Trotsky , Literatura e vida nacional, de Antonio Gramsci, Obras-Primas que poucos leram, quatro volumes organizado por Heloisa Seixas, Quem ama literatura não estuda literatura, de Joel Rufino dos Santos, Caminho para a leitura, Marcos de Castro e A biblioteca e seus habitantes, de Américo de Oliveira Costa.

   Sem querer entrar no mérito do valor literário desse tipo de produção, acredito que os romances policiais têm um grande peso na formação de um público leitor. Eu me refiro a obras como O misterioso caso de Styles Morte no Nilo – da britânica Agatha Christie – e O cão amarelo e O porto das brumas – do belga Georges Simenon. Obra-prima literária é O falcão maltês, do excepcional autor norte-americano Daniel Hammett.

   Dicionários também são indispensáveis. E não somente à consulta direcionada. Folheá-los é sempre uma fonte renovada de alegria. Penso no Aurélio e no Houaiss, certamente.  Contudo, os dicionários de caráter mais etimológicos sempre reservam maravilhosas surpresas, sobretudo aos historiadores. Com essa ótica, Autores como Nei Lopes – um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros e militante incansável pelos direitos dos afrodescendentes – e Antonio Geraldo da Cunha – um arquiteto na origem -  nos ensinam muito, com seus estudos voltados, respectivamente, para a influência africana e a presença do tupi no português do Brasil.

   Algumas coleções, de caráter necessariamente geral, como Rumos do Mundo,  História Geral da África e História da vida privada representam uma fonte de permanente consulta para mim e, acredito, para qualquer pesquisador. Penso até que faz muita falta obras desse tipo, que atingem o grande público, mas que também satisfazem o leitor mais direcionado.

   Revistas e suplementos literários de jornais também têm a função de divulgar o que a literatura e o pensamento crítico possuem de mais atraente e inovador. Muitas publicações contribuíram para o meu prazer de ler e para a minha própria – ainda que limitada – formação cultural. A lista é longa e espero não estar omitindo publicações importantes. Lá vai: Revista Civilização Brasileira (em suas duas fases), Suplemento Literário (o estupendo SL, de Minas Gerais), Humboldt (do Instituto Goethe, da Alemanha), La Pensée (editada em Paris), Dialectiques (também editada na França), Babelia (suplemento do El País, da Espanha, acessível pela internet), Módulo (peguei somente a segunda fase), La Nouvelle Critique (da França), Le Magazine Littéraire (também da França), Anthropologie et Sociétés (editada no Canadá), Revista Vozes, Estudos Históricos, Estudos Avançados (da USP), Correio da Unesco, Estudos Históricos, L´Homme (editada na França), Le Monde des Livres (suplemento do diário Le Monde, também acessível hoje pela internet), Le Nouvel Observateur (semanário francês com ótimas críticas literárias), Prosa e Verso (suplemento de O Globo), Mais! (suplemento editado durante alguns anos pelo jornal A Folha de São Paulo), Paz e Terra, Cahiers du CERM (uma publicação marxista francesa), Unesp Ciência, História Viva (vendida em banca), Política Democrática (da Fundação Astrojildo Pereira, na linha da antiga Estudos Sociais), Revista Vozes, Ideias (do Jornal do Brasil), Pensar (do Estado de Minas), Revista de História da Biblioteca Nacional e La Recherche (do Conselho de Pesquisa da França).  

   Não sei como classificar isso entre os gêneros literários, mas os bilhetes que Robert Escarpit escrevia diariamente no francês Le Monde – os quais não ultrapassavam oito ou dez linhas – eram um verdadeiro deleite. Deixaram saudade. As máximas e aforismas também me encantam e muito. Numerosos filósofos da Antiguidade – como Marco Aurélio – recorreram a essa forma de expressão, que quase sempre revela um sistema aberto de pensamento. Mais perto do nosso tempo, homens como Friedrich Nietzsche também se valeram do aforisma para expor suas reflexões e inquietações. Humano, demasiado humano é um exemplo disso. O livro de máximas que li com maior prazer se intitula Reflexões, do moralista francês La Rochefoucauld. Há uma máxima dele que considero imbatível: “As disputas não durariam tanto se o erro estivesse somente de um dos lados”. Máximas e pensamentos, de Sebastien-Roch Chamfort vem logo abaixo de Reflexões – se é que podemos falar em linha sucessória nessa matéria. Outro grande autor de máximas foi o nosso Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Sobre ele, escreveu ninguém menos do que Pablo Neruda: “Al Barón de Itararé / un grande entre los grandes, / con respeto le saluda de pie / el poeta de los Andes: / Neruda. 
   Há uma obra que representou um divisor de águas na minha vida e, creio, na vida de muitas outras pessoas: trata-se do Manifesto do Partido Comunista, dos filósofos e ativistas alemães Karl Marx e Friedrich Engels. Que universo esse livro descortinou na minha existência! Que lição de História e que sopro humanista! Desde então, o fantasma do capitalismo não deixaria mais de rondar o meu mundo. E eu não poderia deixar de mencionar, já que estamos no terreno do marxismo, um livro criticado pelo próprio Marx: O direito à preguiça, de seu genro Paul Lafargue. Para Marx, Lafargue era um pouco ingênuo em suas observações sobre o fim do trabalho. Mas trata-se sem dúvida de um panfleto formidável contra o trabalho idiotizado. Médico, jornalista, Lafargue trazia o internacionalismo no sangue: nascido em Cuba, em sua família havia índios, negros, judeus, franceses. Não foi por acaso que Paul Lafargue se tornou um dos cérebros da I Internacional dos Trabalhadores.  

  Há um livro, ainda na área que poderíamos denominar de política ou de estudos sociais, que provocou grande impacto em mim, como se  estivesse lendo um Friedrich Engels atualizado. Refiro-me ao ensaio Os condenados da terra, do psiquiatra antilhano Franz Fanon, uma análise das mais aprofundados sobre o fenômeno colonial e suas consequências para o desenvolvimento mental dos colonizados. O prefácio desse livro é de ninguém menos do que Jean-Paul Sartre. Franz Fanon morreu aos 36 anos de idade, desfalcando certamente nosso pensamento.

 O ensaísmo político, filosófico, histórico, literário e social me fez entrar em contato com autores como Jose Carlos Mariátegui, Astrojildo Pereira, Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre, Amilcar Cabral, Adam Schaff, Ernest Bloch, Celso Furtado, Alberto Passos Guimarães, Edmund Wilson, Yuri Lotman, Leandro Konder, Sérgio Paulo Roaunet, Luiz Werneck Vianna, Carlos Nelson Coutinho, Josué de Castro, Edgar Morin, Nicolai Bukharin, Alain, Nelson Werneck Sodré, José Honório Rodrigues, Sérgio Buarque de Holanda, Leon Trotsky, Darcy Ribeiro, Cruz Costa, Milton Santos, Thomas Morus, Antonio Gramsci, György Lukács, Pierre Vilar, Walter Benjamin, Roger Garaudy, Ernest Mandel, Lucien Goldmann, Norberto Bobbio e Vladimir Lênin, enriquecendo sem dúvida minha concepção de mundo.
  Outro texto – e não sei dizer se poderia ser considerado um livro à parte; com a palavra os doutos estudiosos da Bíblia Sagrada – que muito me impressionaria seria o Sermão da Montanha. Não há nada mais singelo do que esse texto, tanto no fundo quanto na forma. Um manual de conduta a ser seguido pelos homens de boa vontade. Se há um discurso inspirado por Deus, esse discurso é seguramente o Sermão da Montanha. O que chega mais próximo dele é a Oração de São Francisco de Assis e um ou outro escrito dos chamados Padres do Deserto, todos embriagados de Deus. 
    O Bem é inseparável do Belo, nos ensinou a Igreja Católica, a primeira instituição universal de cultura que o mundo conheceu. Logo, não posso deixar de lado o domínio da Arte. Muitos livros sobre a prática artística me marcaram ao longo das minhas leituras. Mas nenhum como A necessidade da arte, do austríaco Ernest Fischer. Com sensibilidade extraordinária, o Autor sobrevoa a história da arte, estabelecendo como cada um de nós precisa da imaginação e da beleza para alcançar uma existência mais rica. Para quem quer se iniciar nos estudos das artes plásticas e da poesia, não recomendaria obra melhor. Eu o li três vezes. E pretendo ler outras vezes mais, pois sempre descubro algo novo. Eu diria até que se há um livro que merece ser considerado um trabalho verdadeiramente humanista este livro é A necessidade da Arte. Ernest Fischer escreve de forma extremamente agradável – e o prazer conta tanto na escrita! Mas não posso omitir a História social da Arte e da Literatura, de Arnold Hauser, pela riqueza quase infinita das análises e informações. Aprecio igualmente A arte e a vida social, G. Plekhanov, um dos primeiros ensaios marxistas que li sobre a criação artística. E uma vez que estamos nos referindo a obras de ponto de vista marxista sobre a Arte, Las ideas esteticas de Marx, do espanhol radicado no México Adolfo Sánchez Vásquez, é um primor no gênero. E tampouco posso deixar de lado O significado da Arte, do inglês Herbert Read, outro livro formidável, aberto ao novo, como ao papel do gênero naïf no contexto histórico e criativo da Arte, por exemplo.

     O Brasil tem produzido, nos últimos anos, albuns de Arte da melhor qualidade. Exemplo disso é o belíssimo Fazendas do Império, com fotografias de Cristiano Mascaro e textos de Mary del Priore, Tasso Fragoso Pires e Roberto Conduru. E não se pode omitir o levantamento realizado pela Editora Abril e divulgado em fascículos em banca de revista, intitulado A Arte no Brasil, creio que no final dos anos 70. 
     Há livros que decidem um destino. O Quilombo dos Palmares, do antropólogo Edison Carneiro, praticamente selou o meu. Explico. Fiquei tão fascinado pela epopéia dos escravos rebelados na Serra da Barriga, em Alagoas atual, que resolvi estudar a sua história. Essa vontade se reafirmou quando eu me achava no exterior – e o encontro com o quilombo representava um resgate da história do país longínquo. Posso dizer que, desde 1974, pelo menos, nunca mais abandonei os estudos sobre Palmares, produzindo desde então pesquisas, dissertações, livros e artigos sobre o assunto. Outros três livros pelo menos influenciaram decisivamente nessa minha paixão pelos estudos históricos. Vamos a eles. A República comunista-cristã dos guaranis, do jesuíta Claude Lugon, bela pesquisa sobre a saga dos índios na América do Sul; Capítulos de história colonial, de Capistrano de Abreu, um maravilhoso autodidata e que trabalhava em uma perspectiva multidisciplinar já no início do século XX, e História da riqueza do homem, de Leo Huberman, um relato extremamente bem escrito da luta dos trabalhadores através dos tempos. “Desessete anos antes do do fim do século XIX, Karl Marx morria. Desessete anos após o início do século XX,  Karl Marx tornava a viver”.

 Um livro me encantaria quando eu era ainda rapazola e dava meus primeiros passos na militância estudantil: trata-se de O ano vermelho, de Moniz Bandeira, Clovis Melo e Aristélio de Andrade, obra que estuda o impacto da revolução Russa no Brasil. Modos de produção e realidade brasileira, obra coletiva organizada por José Roberto do Amaral Lapa, também exerceria influência sobre mim. Destacaria aí o primoroso texto de Nelson Werneck Sodré, analisando o escravismo brasileiro. A Maurice Dobb e Paul Sweezy devo uma das leituras mais esclarecedoras que fiz sobre a transição do feudalismo para o capitalismo. E eu não poderia deixar de citar ainda a obra magistral de Jacques Le Goff, A civilização do Ocidente Medieval. Ainda nessa linha da história medieval européia, vale citar a portentosa obra de Georges Duby, sobretudo As três ordens ou o imaginário no feudalismo, livro que faz com que qualquer pessoa se apaixone pela História. Outro livro de História – na realidade, a meio caminho da História com H maiúsculo e da história pessoal, ainda que com P maiúsculo… – é o denso Tempos interessantes – Uma vida no século XX, de Eric Hobsbawn, provavelmente o mais influente historiador do século passado. O homem e o mundo natural, do inglês Keith Thomas, é também um dos melhores livros de História que conheço, revelando um autor de extrema sensibilidade e extraordinária cultura.

  Prosseguindo. Se a antropologia se apresenta, hoje, como um campo fascinante da reflexão humana isso se deve em boa medida a um centenário senhor chamado Claude Lévi-Strauss. E em particular a seu denso Tristes trópicos, um dos primeiros livros a reconhecer plenamente o direito à História aos índios das Américas e aos demais povos que desconheciam o Estado e a divisão da sociedade em classes. Claude Lévi-Strauss era, sob esse prisma, o anti-Hegel.  Mais: o antropólogo deu aos mitos indígenas uma dignidade de tratamento desconhecida até então. Lévi-Strauss trabalhava conscientemente para que a cultura dos índios das Américas venha a nos guiar um pouco um dia. Os novos gregos, quem sabe. Outros antropólogos franceses cujas obras muito admiro são Maurice Godelier e Pierre Clastres. O primeiro perscrutou o espaço da economia nas sociedades ditas primitivas, o segundo se esforçou – com sucesso, na visão de alguns – para provar que essas sociedades queriam evitar a qualquer preço a formação do Estado, do Um. Entre os brasileiros, gosto de ler os livros de Mércio Gomes, a começar por Antropologia, uma bela introdução ao que essa disciplina produziu de melhor ou mais significativo nas últimas décadas.

   Dialogando com a História e a Antropologia, de certa forma, mas representando naturalmente um domínio à parte, temos a Pré-história como área de conhecimento que provoca imensa satisfação quando lemos alguns de seus textos mais significativos. Os livros de André Leroi-Gourhan e, depois dele, os de Richard Leakey são os que mais me fascinam nessa área. 
   A Antiguidade Clássica revelou pensadores extraordinários, nunca é demais lembrar. Os pré-socráticos, Aristóteles (que estudei menos do que deveria), Platão (este, o primeiro a dizer que a sociedade era passível de conhecimento, inaugurando assim as ciências sociais) e, sobretudo, Epicuro, pelo seu apego à liberdade e ao prazer. Carta sobre a felicidade (a Meneceu) é um dos meus livros preferidos. Com o filósofo Epicuro aprendi algo fundamental: a importância da serenidade – ainda que eu mesmo tenha grande dificuldade em praticá-la. E, acima de tudo, Epicuro nos ensina a vontade de exercer controle sobre nossa própria existência. Outros autores – e penso em Montaigne dos Ensaios, escrito na linha da valorização ou aproximação da filosofia com os problemas do cotidiano e da subjetividade – enveredaram pela mesma seara. Sêneca foi um deles também. Marco Aurélio outro. Cícero, de certa forma também. Mas Epicuro segue sendo para mim inigualável, único. 
    A psicanálise me reservou leituras profícuas. A começar pelo Mal estar na civilização, livro no qual Sigmund Freud expõe o quanto o processo civilizatório depende da repressão aos instintos agressivos presentes no homem. Mais do que um livro, Mal estar na civilização é um código de conduta, como os Dez mandamentos, por exemplo. Outro trabalho que me encantou foi o relato Memórias, sonhos, reflexões, do psicanalista suíço Carl Jung, cujo pai achava que ele não seria nada na vida. Se o genitor era ruim de diagnóstico, o mesmo não poderia ser dito a propósito filho, discípulo – depois dissidente – de Sigmund Freud. Ainda na linha dos livros de ou sobre a psicanálise, não poderia deixar de lado o fundamental A arte de amar, de Erich Fromm. O Autor repõe, com muita propriedade, o amor no centro de nossas vidas, seja ele de caráter materno, paterno, fraternal ou aquele de um homem por uma  mulher. Nem que seja por esse motivo o livro é insubstituível. De Erich Fromm – um filósofo da cultura, sou tentado a considerar que sim – admiro também, entre outras grandes obras, Meu encontro com Marx e Freud e Do amor à vida, esta uma série de conversações radiofônicas, organizada por Hans Schultz. De Bruno Bettelheim aprecio particularmente A Viena de Freud e outros ensaios, obra densa, servindo de introdução abalizada ao conhecimento da efervescência cultural de uma cidade que pode ser considerada a mais criativa da Europa Central nas primeiras décadas do século XX. 
    O tempo das lembranças e da valorização do Eu. Assim vejo os relatos  de corte memorialístico. O mais incrível que conheço são as Memórias de Pedro Nava. Li somente os três primeiros volumes. São seis, ao todo. Emocionante, lascivo, contundente, estonteante, lírico, despedaçado, abusado, cruel por vezes, Pedro Nava é o maior escritor barroco que conheço. Um livro seu tem ao mesmo tempo a leveza de um poema de Manuel Bandeira, a profundidade das reminiscências de Marcel Proust, a beleza do  corpo de mulher amada e a transparência de uma mina d´água. Um livro seu é simplesmente puro esplendor. Outra memória primorosa é Minha formação, de Joaquim Nabuco, um brasileiro lúcido. Confesso que vivi, de Pablo Neruda emociona pelas circunstâncias em que o livro nasceu: foi ditado pelo poeta poucos dias antes de sua morte, acelerada pelo golpe militar de do facínora Augusto Pinochet. De Neruda, li também, só que bem mais tarde, Para nascer nasci. De José Lins do Rego, não poderia deixar de mencionar Meus verdes anos, provável base para Menino de engenho. As curvas do tempo, de Oscar Niemeyer, é outro livro de memórias impecável, pela riqueza da trajetória centenária do arquiteto e a qualidade de suas amizades. Um diário estupendo é O ofício de viver, de Cesare Pavese, um homem angustiado e de trajetória político-cultural extremamente rica. Confissões, de W.Somerset Maugham, também é uma obra deliciosa de se ler, lírica e bem humorada. Densa, por vezes dura, é O nariz do morto, de Antonio Carlos Villaça, livro que muito me cativou e que infelizmente perdi em alguma mudança.

  Memórias, de Gregório Bezerra, em dois tomos, é um livro que comove: retrata a história de vida de um dos mais extraordinários brasileiros do século XX, um homem de ferro e flor, no dizer do poeta. Da infância no Nordeste, quando começou a trabalhar a terra ainda menino, às inúmeras cadeias, trata-se de relato pungente, de enorme pureza. Gregório foi um líder camponês comunista recordista brasileiro de prisão política: 17 anos ao todo. Na mira de uma esquerda ambidestra (depoimento e ensaios), de Ailton Benedito de Souza, é obra rica do nosso recente memorialismo político, assim como o emocionante Viver e morrer no Chile, de Sérgio Augusto de Moraes, que narra a passagem desse comunista histórico pela terra de Salvador Allende e Pablo Neruda em tempos de revolução e contra-revolução. Antes do fim, as memórias do grande escritor e humanista argentino Ernesto Sabato, é outro livro que muito me enterneceu, como quase tudo que li desse extraordinário autor, falecido pouco antes de completar cem anos, em 2011. Publicado em 2008, o livro de memórias de Joel Rufino dos Santos, Assim foi (se me parece), é um primor no gênero, ao mesmo título que Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira, uma biografia literária. Outra obra que li com muita atenção foi Almanaque de memórias, de Ernani da Silva Bruno, um autoditada que muito contribuiu para o conhecimento histórico do Brasil, sobretudo no plano das regiões. Reconheço que em matéria de literatura do Eu, tudo começou com Agostinho de  Hipona, com suas Confissões, um relato que impressiona pela sinceridade: “Deus, dai-me castidade, mas não já!” 

  Na mesma linha poderemos inscrever o gênero epistolar. Quem não se deixa fascinar, por exemplo, pelas cartas de Voltaire, autor presumível de centenas delas? E o que dizer de Cartas a Lucílio, de Sêneca, um verdadeiro regalo filosófico? E, acima de tudo, como não recordar as saborosíssimas Cartas escolhidas, de Madame Sévigné, endereçadas quase  sempre à filha distante, mas que se transformaram em referência literária para todos nós e em painel social de toda uma época também? Sem esquecer jamais que as cartas são um dos gêneros literários da Bíblia. Abençoadas, portanto. Aquelas escritas por São Paulo estão entre as mais belas que alguém possa ter lido ao longo da vida. E o que falar ainda das cartas de amor? As de Kafka a Milena, por exemplo? Eu me lembro de um livro – cito de memória e ela pode estar me traindo – que li há muitos anos, o qual reunia as missivas dos grandes músicos e poetas. Creio que se intitulava Minha amada imortal, inspirada em famosa carta de Ludwig van Beethoven ao seu amor incógnito.
    O homem certo no lugar certo – a fórmula entrou para a história da literatura. É a força do relato, a qual está presente em Os sertões, de Euclides da Cunha, e também em Os dez dias que abalaram o mundo, do norte-americano John Reed. Sem esquecer o formidável Dersu Uzala, do militar russo Vladimir Arseniev, uma espécie de Rondon eslavo. Biografias resultam muitas vezes em obras admiráveis, como Estrela Solitária: Um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro.

   Livros de viagem têm uma característica interessante. Ou seja, podem nos transportar a todos os lugares do mundo sem que precisemos sair do nosso quarto. Muitos já salientaram isso. Apesar de existirem relatos desde tempos quase imemoriais – basta dar o exemplo de Heródoto -, é possível que o poder de atração deste que é hoje um gênero literário tenha crescido ainda mais após a descoberta do Novo Mundo e, sobretudo, com a Revolução Industrial e a chamada globalização. Vale dizer, mais a globalização uniformizava o mundo, moldando-o à imagem e semelhança da velha Europa, mas ela provocava, paradoxalmente, o desejo do diferente. A literatura de viagem configura, no fundo, uma evasão do mundo pasteurizado, do modo de vida único. Pode ser um documento histórico ou científico; um relato de aventura ou um diário pessoal – mas é sempre uma descrição singular, intransferível, por vezes subjetiva quase ao extremo. Há livros absolutamente extraordinários, os quais revelam, muitas vezes, que a grande viagem é aquela que o autor faz em torno de si mesmo – através dos outros.

 O primeiro livro que destacaria – e que possui, justamente, um tom irresistivelmente intimista – é Caminhada, de Herman Hesse. Trata-se de uma travessia de uma parte dos Alpes, mais exatamente dos Alpes alemães por parte do Autor. É um livro de reflexão filosófica sobre a solidão e também a imensidão da natureza. O desejo de locomoção e a vida sedentária dos campônios alpinos. É maravilhosamente ilustrado, pelo próprio Hesse. De certa forma, segue no rastro do célebre Devaneios de um caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau, outra maravilha do gênero. Um dos inspiradores da Revolução Francesa – movimento que iria colocar forças incontroláveis em movimento pelo  mundo afora -  Rousseau era, paradoxalmente, um homem só. “O homem nasce livre, porém em todos lados está acorrentado” – o filósofo pregava uma espécie de retorno ao estado natural – daí talvez a sua modernidade. Henry David Thoreau, que passaria dois anos de sua vida sozinho no lago Walden, era um partidário dessas idéias. Seu livro Walden, datado de 1854, descreve seu isolamento, justamente – e sua busca pela autossuficiência – em uma floresta norte-americana, tornando-se por assim dizer a bíblia da geração beatnik um século depois. Era uma figura mística, solteirão convicto, cultíssimo. “Eu fui à Floresta porque queria viver livre. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida… expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido” – puro Rousseau, como se  vê. Lugares exóticos sempre atraíram os viajantes. Penso em Viagens, de Marco Polo – clássico dos clássicos -, e também em Viagem pela África, de Paul Theroux, além do ótimo Nos Mares do Sul, de Robert Louis Stevenson. E penso igualmente em Viagem ao Tibet, da orientalista francesa Alexandra David Neel (não tenho certeza se existe tradução desse livro em língua portuguesa) e em Viagem a Portugal, denso livro de José Saramago.

 Há muitos e muitos outros relatos fascinantes, como o estupendo Patagônia, de Bruce Chatwin, autor precocemente desaparecido e o não menos estupendo Sob o sol da  Toscana, de Frances Mayes, um livro de cultura, assim como Os vienenses, de Paul Hofmann. A fazenda africana, de Isac Dinesen, pseudônimo de Karen Blixen, é outra obra que me fascina, a meio caminho entre a memorialística, o relato de viagem e a ficção. A outra Europa, do alemão Hans Enzensberger, Um ano na Provence, do inglês Peter Mayle e Mil dias na Toscana, de Marlena de Blasi são três outros livros que podemos ler com imenso proveito. De Sérgio Paulo Rouanet aprecio o ensaio A razão nômade, que busca contextualizar os livros de viagem, com uma elegância intelectual rara. E eu nem quero citar A carta de Pero Vaz de caminha ou, mais perto de nós, os maravilhosos relatos do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire e mesmo o hino de amor a Belém do Pará que Mário de Andrade produziu em O turista aprendiz. E quase ia me esquecendo do formidável Jean de Léry, misto de sapateiro e viajante, cuja obra Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, repousava sobre a cabeceira de ninguém menos do que Claude Lévi-Strauss. Em matéria de livros de viagens, teve até um relato sobre o México – quase um guia turístico, pela precisão -, elaborado pelo português José Agostinho Baptista, que simplesmente nunca estivera por lá, na terra de Emiliano Zapata e David Alfaro Siqueiros. Trata-se de uma viagem imaginária. 

     No fundo, talvez todas as viagens o sejam.

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